segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Comentário a uma crónica do João Craveirinha

No Pululu, blog do angolano Eugénio Almeida, li uma crónica de autoria do João Craveirinha intitulada de 'A origem do espírito brasileiro “anti-português” ". Lá deixei um comentário sobre algumas questões que não concordei com a interpretação do João C., e achei válido aqui reproduzir, com algumas correções de concordância e ortográficas sem alterar o conteúdo.
Para entender melhor o meu comentário, possivelmente fique melhor ao visitante da Lanterna Acesa ir até ao Pululu  e ler a crónica em questão.
Mas disse eu no comentário postado no blog do Eugénio Almeida:


É aceitável que todo "historiador" coloque um pouco da sua interpretação dos fatos, e ficamos nós, os mortais, no direito e por vezes na obrigação de discordar, ainda que parcialmente.
Neste caso vejo algumas distorções, ou erros de interpretação do João Craveirinha, como quando afirma que os brasileiros têm inclusive aversão às outras ex-colônias portuguesas devido ao vinculo histórico destas (ex-colônias e Portugal).
Erra também quando diz que esta aversão brasileira às coisas portuguesas “vem ressurgindo com toda a força”.
Moro no Brasil faz 34 anos, dos meus 49, continuo sem conseguir disfarçar o meu sotaque luso (nem tenho intenções de o disfarçar), e sei bem que a “implicância” com os imigrantes portugueses é infinitivamente menor de quando cá cheguei em 1975. E o meu exemplo é muito curto para o período que o João pesquisou. E uma “implicância” muito ligada ao humor brasileiro na carona das anedotas com o personagem “português”. Muitas vezes anedotas contadas por quem não sabe contar e que acabam ficando ridículas.
Mas o que queria eu dizer sobre o tema “anedota de português”, é que têm elas pouco a haver com a história de colonizador e colonizado e sim por um momento da história muito mais recente, já no Séc. XX, quando o Brasil recebeu um grande número de imigrantes portugueses de baixa escolaridade, lá nos tempos das Grandes Guerras Mundiais, o que deu asas para se confundir, muito possivelmente de forma proposital, o que é ser “ignorante” e ser “burro”. E, diga-se de passagem, os próprios brasileiros assumem que de burros esses portugueses não tinham nada, pois uma grande parte deles passaram aqui a viver melhor do que quando em Portugal ao conseguirem, com toda a “ignorância”, se transformar em patrões, sendo hoje algumas dessas famílias proprietárias de grandes grupos empresariais cá no bairro, ou empresários de menos imponência mas ainda assim de sucesso, como proprietários de panificadoras, confeitarias e outros empreendimentos de médio porte.

Fonte da imagem: Jardim de urtigas

domingo, 22 de novembro de 2009

Quem é o Lula?


Tenho no Lula e muitos que o ajudam a governar, pois ninguém o faz sozinho, como tendo formado o melhor governo das últimas e longas décadas.
Pilota a economia brasileira por trilhos que nunca andou. Economicamente o Brasil começa a deixar de ser um país da esperança para ser, de fato, umas das economias mais fortes do planeta e com perspectivas de dias ainda melhores.
Ainda que alimentando cada vez mais a iniciativa privada para que esta fique mais consistente, não deixa o governo do Lula de olhar pelos menos favorecidos.
Criaram projetos sociais visto por muitos como “caça votos” mas essenciais para amenizar a dor de muitos em um mega país onde as soluções reais e definitivas não acontecem de um dia para o outro. Falo do “Bolsa Família”, ProUne e outros,.. e estou com o Lula quando este quer transformar os Projetos em Programas solidificados em leis, para consolidar estas conquistas de forma definitiva. Se vão ver isso como uma conquista do Lula ou do povo, pouco me importa desde que os menos favorecidos sejam tratados com mais dignidade.
Já quando se trata de diplomacia externa, com grande participação do seu guru Celso Amorim, o Lula vem queimando o seu nome e a imagem do Brasil junto à comunidade internacional e mesmo dentro do seu eleitorado tupiniquim.
Apoios a governos com posturas de um Chavez, e com convites para visitar o país a um Ahmadinejad, mostra uma linha ousada mas irresponsável para que se transforme o nome de Lula em uma possível candidatura futura para a ONU. Fica claro que o projeto do governo Lula de fazer com que o Brasil tenha uma cadeira no Conselho de Segurança passou a segundo plano em relação ao de ter o Lula como “number one” da Organização.
Lula, como Presidente eleito democraticamente, governando um país que se quer democrático, que defende internamente a democracia brasileira, que sofreu com uma ditadura na pele, ele e alguns dos seus colegas que hoje nem mais por aqui estão para contar histórias, tem mais é que ser imparcial na luta contra qualquer variável de ditadura, contra os crimes em relação aos direitos humanos. Ele tem que se perguntar se na época de dirigente de classes de trabalhadores, nos tempos de ditadura, ele colocava, ou se ainda hoje colocaria, possibilidades de procurar se entender com quem prende, tortura, mata, porque tem quem acredite que a liberdade de expressão é um inimigo da evolução social, porque religiosamente ou por visões políticas divergentes, grupos devam ser exterminados da sociedade.
O apoio de Lula a este tipo de atitudes no cenário internacional esvazia o seu espírito humanitário plantado em casa. Destrói todos os seus conceitos de democracia.
Quem é o Lula que queremos? O que conhecemos nas suas atitudes, ainda que com alguns escorregões, na sua política interna ou o Lula da sua política e diplomacia externa?
Quem é o Lula?

domingo, 15 de novembro de 2009

É certo que se convide ditadores, sejam eles religiosos ou políticos, com honras de Estado?

Por António Maria G. Lemos

Não concordo com o patrulhamento da imprensa em cima do governo Lula. Ressaltando os erros do seu governo em manchetes, e os acertos, em notas pequenas de ultima página. Mas cá entre nós, há coisas deste governo que apesar de achar dos melhores que já tivemos, também não consigo engolir em seco.
A sobreposição de valores próprios, típicos da nossa cultura, defendidos por ele em campanha e durante uma vida - que espero seja longa na política - em nome da "paz" (ou interesses comerciais) , não a vejo sempre com bons olhos.
Como por exemplo, que a diplomacia pragmática, (desculpem o pleonasmo), do governo atual, vem priorizando na agenda de encontros internacionais. Convidando, e depois claro, recebendo e sendo recebido por Tiranos. Sejam eles representantes de monarquias árabes , os ditadores do Irão e Líbia, o percussor da corrida da militarização na América do Sul; Chavez, que nos moldes do velho socialismo do seu Tio Fidel, precisa urgentemente de um inimigo internacional, para desviar as atenções do povo, sobre os verdadeiros problemas internos que assolam o seu pais. Pobre da Colômbia, que foi escolhida por ele, como sendo a “bola da vez”. Será por isso que o Brasil, resolveu dar prioridade de interesses nacionais, à compra de submarinos atômicos franceses? Baseado no princípio dos interesses nacionais; amigos-amigos, negócios á parte? Há que manter o taco do Chavez - também conhecido como “mamãe quando crescer eu quero ser Bolívar” - à distancia.
Deve o nosso governo priorizar o desenrolar do tapete vermelho a tais tiranos, e recebê-los com honrarias de Estado Democrático ?! Não haverão outros Chefes de Estado, de interesse nacional, menos antagônicos á nossa Constituição, para ser convidados?
Se Lula fosse bem assessorado, teria conseguido as mesmas vantagens comerciais, ou “ajuda para a paz”, se tivesse levado esses contactos ou investimentos diplomáticos, no patamar de ministros, como outros países o fazem. Assim , de forma simbólica, tentam mostrar aos tiranos que eles têm ainda que mudar muito, para poderem entrar pela porta da frente, e se sentar no sofá da casa que pretendem freqüentar.
Se o nosso governo fosse honesto consigo mesmo, não poderia se dizer a favor do respeito unilateral dos Direitos Humanos; liberdade de expressão, igualdade entre homem e mulher, abolição da escravatura, etc... Ser contra a perseguição ao homossexualismo, uso das crianças-soldado... e ao mesmo tempo lidar com tiranos que até hoje tem o seu "pelourinho" ativo, e em praça pública chicoteiam homens e mulheres em nome da Charia (lei religiosa). Lei mais do que medieval, (como a queima das bruxas no ocidente), usada por usurpadores de poder, que nada tem haver com a religião islâmica, que dizem defender.
Aliás se Deus existir, em qual formato religioso que seja, esses tiranos seriam os "fariseus" a ser expulsos do paraíso.

Somos a favor ou contra os Direitos Humanos?

Se podemos abdicar dos nossos valores humanos e culturais em nome de necessidades comerciais do país, porque então não começarmos com a produção e exportação de droga, que nem o Talibã no Afeganistão? Se os valores que achamos crer, e até bradamos ao mundo os defender, podem baixar no escalão das prioridades governamentais. Baseado nesse princípio, de uma só tacada , poderíamos matar dois, ou mais, coelhos. Passaríamos a produzir e exportar drogas, acabando com os subsídios à agricultura, aumentando assim as exportações, entrada de divisas, e melhorando consideravelmente a subsistência dos nossos peões de roça.
Os latifundiários ganhariam ainda mais do que já ganham... mas como se diz por aí, não há política perfeita, e em nome da diplomacia pragmática.
Sei que para alguns agora estarei sendo um tanto radical na minha "linguagem plástica/visual", sobre o tema; “Valores” x “Interesses” = Y : Y = Tolerância ?!
Nasci e morrerei tolerante, mas desde que o preço não seja o de ter que vender os valores que acredito e defendo.
Se elege um governo, por acreditar que ele jamais apertaria a mão de pessoas que desrespeitam os mais básicos e primordiais Direitos Humanos. E que venha a defender os valores que a nossa cultura política, religiosa e constitucional, defende. Abominando abraços de urso, como o foi o de Hitler e Stalin, que por um não respeitar os seus próprios valores constitucionais, acabou sendo invadido um ano depois desse "abraço de diplomacia pragmática", pelo exército do já então conhecido tirano nazi.
Um governo deveria representar não só os interesses econômicos, como também defender os valores da Constituição - pilar social, político da Nação - que ele representa.
Será que em nome da "pseudo-tolerância" cultural e religiosa, deveremos aceitar que filosofias, sejam elas políticas ou religiosas, estejam acima dos Direitos Humanos e da nossa Constituição ?















Manifestantes  no   Rio   de   Janeiro,  em   3
de Maio de 2009,  na  véspera  da  visita  de
Ahmadinejad que acabou por ser adiada.
Agora está agendada a visita do ditador ao

Brasil para Novembro.


Fonte da foto: Site do Estadão

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Fui à feira de imóveis, voltei com música...


Fui a uma feira de imóveis e voltei com 6 DVD’s de música.


Comprei o Zé Ramalho canta Bob Dylan (tá tudo mudando), lançado no ano passado; na onda nostálgica, dois da Elis Regina, sendo um show produzido pela TV Cultura (que vejo e ouço em quanto escrevo esta nota), e um outro produzido pela TV Globo, um do Toquinho, de um show em 1983 na RTSI, um do Deep Purple, onde posso ouvir Woman From Tókio e outras preciosidades, e por último um DVD de uma bela coletânea de gente brasileira, com algumas performances mais antigas, outras não tantas, como Rita Lee, Cássia Eler, Lulu Santos, Zeca Baleiro, Jorge Bem Jor, Titãs e tantos outros da boa música tupiniquim.

Comentando o DVD do Zé Ramalho, ainda que seja eu um suspeito para falar de alguém que já bato palmas antes mesmo de ouvi-lo, é mais uma grande performance deste nordestino. Para não haver frustrações, não podemos querer ali ouvir o Bob Dylan e nem mesmo as músicas no seu formato original. São versões com a personalidade interpretativa do Zé Ramalho, onde apenas uma música é em versão original e em inglês, ainda que interpretada pelo pernabucano, que é a"If not for you".
Destaco a participação em uma das faixas do grande guitarrista pernambucano, que tanto curti na minha juventude, Roberto do Recife.

Na minha consciência leve, e para garantir o código de ética de décadas atrás, estarei dividindo algumas destas belas performances em “K-7”, pois quando ali gravávamos as nossas músicas preferidas e a emprestávamos aos amigos ninguém nos classificava de piratas. Continuo apostando nesta alternativa, que como consumidores temos; Gravar o que compramos e dividir, sem fins comerciais, não deixando de usufruir das novas tecnologias, inclusive de comunicação, como a internet.

Por outro lado, já indico que comprem estes dois primeiros que já ouvi e que ouço, que são este do pernambucano Zé e o da Pimentinha produzido pela TV Cultura. Assim os terão na integra e com melhor qualidade.
E não comprem DVD e CD pirata. Não alimentem pilantras. No entanto, um "K-7" é sempre bem vindo!

domingo, 4 de outubro de 2009

Mercedes Sosa, ficou o seu legado.

A argentina Mercedes Sosa era naturalmente internacional. É difícil se mensurar o quanto ela influenciou, como artista e cidadã do Mundo, artistas e intelectuais e menos intelectuais do planeta, em especial na América do Sul.
Quando se anuncia o falecimento de artistas internacionais reconhecidos pela a sua arte, surge sempre um sentimento de perda, mas não com o mesmo impacto quando se recebe a notícia do desaparecimento de uma Mercedes Sosa. Ao acordar hoje e ao me deparar com esta noticia, a sensação é que havia perdido algo importante na minha própria história.
Ouvindo Mercedes Sosa se ganha coragem em se lutar para que se seja um cidadão do Mundo com mais responsabilidade, com mais comprometimento com questões sociais.
Já estava no Brasil quando as portas, por aqui, começaram abrir para a democracia no final da década de 70, inicio de 80. Logo depois começamos a ouvi-la, quando muitos ainda inseguros perguntavam se não era proibido a execução, na TV e rádios, das músicas desta argentina. Milton Nascimento e Chico Buarque passaram a ser os cicerones para esta artista no mercado brasileiro, e como conseqüência para esta cidadã no país vizinho ao das suas origens.
Mais tarde,em 1986, Mercedes Sosa patrocinou um dos momentos mais altos, ao meu ver, da TV brasileira quando participou com Milton Nascimento e Gal Costa do então programa “Chico e Caetano” da TV Globo.
Morreu hoje Mercedes Sosa... ainda bem que a história não se apaga.






sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Back to the garden


Ao se festejar, em Agosto, os 40 anos da Feira de Arte e Música de Woodstock, alguns livros foram lançados e outros tantos relançados.
Peguei, em uma prateleira da livraria do aeroporto de Curitiba, o escrito pelo DJ da então rádio americana WNEM- FM, Pete Fornatale.
Um livro recheado de antigos e menos antigos depoimentos de gente que participou do maior festival de todos os tempos, no palco, nos bastidores e na platéia.
Depoimentos que falam sobre ausências dos já ícones da música, como os Beatles e Roling Stones, dos problemas de organização, da supresa inesperada de uma platéia de algo próximo a 500 mil jovens, onde em 3 dias de paz, amor, sexo, drogas e muita música, ouve uma manifestação onde a política ficou em segundo plano mas movido substancialmente pelo despertar de uma nova consciência de jovens ávidos por Paz e contra a então guerra no Vietnã, onde a USA estava envolvida.
Depoimentos como o do desconhecido Carlos Santana, que até aquela data não havia lançado ainda o seu primeiro disco, e que explodiu ali para o mundo com uma memorável performance: “É sempre uma onda e um ponto alto recordar o som. Me lembro do som antes de sair dos meus dedos, depois o ouvi saindo dos meus dedos para as cordas da guitarra. Da guitarra para o amplificador. Do amplificador para o PA. Do PA para todo um oceano de gente – uma montanha –, todo um oceano de gente e depois de volta para você. Impossível de esquecer. Foi lá que descobri meu primeiro mantra. A esta altura, muita gente sabe que eu estava chapado de mescalina, porque me disseram que eu só ia tocar às 2h ou algo parecido. Mentiram para a gente. Assim que tomei o lance e comecei a pirar, subimos – eram 14h. Foi essa a primeira vez que repeti meu primeiro mantra, que era, “Deus, por favor me ajude a ficar no tempo e no tom certos”. Fiquei repetindo esse mantra.”
Para quem gosta de rock, country, blues, e tem curiosidade sobre o que rodeava e acontecia com as grandes estrelas antes, durante e depois de Woodstock, aconselho a leitura deste livro.

Título: Woodstock, quarenta anos depois
Título original: Back to the garden
Autor: Pete Fornatale
Editado no Brasil pela Agir Editora Ltda.