quarta-feira, 21 de abril de 2010

Máquina Ligada

Criei hoje um novo espaço, a qual dei o nome de "Máquina Ligada", para dali compartilhar com os leitores da "Lanterna Acesa" algumas fotos clicadas por mim e por outras pessoas a quem estarei convidadno para ali colocar o que por aí andam registrando.
Já aproveito para formalizar o convite ao meu irmão António Maria, craque na arte de fotografar, para nos presentear com algumas das sua clicadas.

Vá até lá  por este link...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mais Velho X Mais Novo



Retalhos da crónica “As 3 gerações” de Machado da Graça

(...) Segundo esta teoria houve, na História do Moçambique livre, 3 gerações: A do 25 de Setembro, a do 8 de Março e, agora, a da Viragem.
Já houve um articulista que perguntou o que foi feito, no meio disso tudo, da geração que acolheu a independência, com todos os seus problemas e desafios. Estou totalmente de acordo com ele mas quero ir mais longe.
E penso que nos devemos perguntar se essa geração do 25 de Setembro saiu do nada. Qual foi o papel dos Craveirinhas, Noémias de Sousa e tantos outros que formaram, ideológicamente, muitos dos que viriam a pegar em armas. Ou, pelo menos, muitos dos que viriam a dirigir os que pegaram em armas, o que não é bem a mesma coisa.(...)

(...) Tudo isto para dizer que esta divisão, actual e simplista, em 3 gerações é, em termos teóricos, uma aberração sem ponta por onde se lhe pegue. (...)

(...) E onde é que fica a geração do carapau e do repolho? A geração do “não há”? (...)

(...) Não me parece que seja possível falar de gerações, muito bem definidas, em todo este processo. E, muito menos, reduzí-las a 3.
Houve, na nossa História, um processo que se foi desenvolvendo, umas coisas levando a outras até se chegar ao hoje que vivemos. Coisas boas e, também, coisas más.
Mas, nesta nova definição das gerações, há uma outra coisa que me faz espécie: O que quer dizer “geração da viragem”?


Retalhos da crônica Respondendo a Machado da Graça: Datas não constituem compartimentos estanques, por Júlio Muthisse

(...) Na sua última crónica, o conceituado jornalista Machado da Graça alega existir uma teoria das três gerações com a qual diz não concordar. Não concorda, entre outras razões, porque não sabe “o que foi feito, no meio de tudo isto, da geração que acolheu a independência, com todos os seus problemas e desafios”. Pergunta também, ”...qual foi o papel dos Craveirinhas, Noémias de Sousa e tantos outros que formaram ideologicamente muitos dos que viriam a pegar em armas...”.(...)

(...)As pessoas que ele e João Mosca diz que receberam a independência, onde estavam quando a geração do 25 de Setembro recuperava a nossa dignidade a ferro e fogo? Se já eram grandinhos, deveriam se ter juntado à geração do 25 de Setembro que congregava pessoas de todas as regiões, de todas as etnias, de todas as raças. Digam-nos onde estavam enquanto os outros lutavam. (...)

(...)A história de Moçambique não pode ser vista de forma desgarrada e, na sua análise, as datas não devem constituir compartimentos estanques. Entendo as datas como representativas de determinados marcos importantes, não de acções isoladas mas de processos que se preparam, organizam ao longo do tempo e se efectivam em datas e espaços devidamente localizados.
É assim que vejo o 25 de Setembro. É um marco importante em todo o movimento secular... (...)

(...) O país não esqueceu esses compatriotas. Um aspecto grosseiro na análise do Mais Velho quando fala do 25 de Setembro e da geração que o protagonizou, é afirmar ou pensar que se dá relevo apenas aos que pegaram em armas e expulsaram os colonialistas de Moçambique. (...)

(...)Com o nível de conhecimento que eu atribuo ao Mais Velho, não posso crer que ele não saiba que para além da frente militar e dentro do quadro do 25 de Setembro, tivemos a actuação das frentes políticas, diplomáticas, culturais, sociais; que enquanto uns combatiam empunhando armas, outros actuavam na organização, na cultura, na mobilização, reconhecimento e em tantas outras missões e frentes. (...)

(...)Portanto, não acho que o Presidente da República tenha instituído uma “Geração de Viragem”. Acho, isso sim, que a mensagem é de que os moçambicanos de hoje podem e têm capacidade para lutar e vencer a pobreza. A insistência do Presidente da República é no sentido de despertar as “forças” dos moçambicanos para aquilo que são as prioridades do momento. (...)

(...)Conquistada a independência, construídos os pilares pelos quais assenta a máquina administrativa do Estado a todos os níveis, continuamos a assistir muitos moçambicanos que vivem no limiar da pobreza, com carências a todos os níveis. O trabalho dos moçambicanos de hoje na luta contra este flagelo, pode fazer emergir no futuro o que orgulhosamente chamaremos de Geração de Viragem. Gostaria de ser parte dela pelo que, Mais Velho, coloquemos mãos a obra.


Agora eu...

Não conheço o Machado da Graça, o Mais Velho, como também não conheço Júlio Muthisse, que passarei desde já a chamar do Mais Novo. Não defino estes cognomes pelas idades, pois não as conheço, mas sim para dar sequência à semântica que o Mais Novo usou na sua crônica e talvez até com uma certa correlação com a maturidade apresentada por um e por outro.
Não os conhecendo, não pretendo defender ou atacar um ou outro, mas sim usar as crônicas de ambos, e as idéias ali apresentadas, para tentar ainda que à distancia, e que não vejam pecado nisso, mostrar o que entendi e não entendi dos textos em questão e o meu próprio entendimento, um moçambicano que saíu da sua terra natal um pouco antes do 25 de Junho de 1975. Tenho receio que com esta última característica os mais novos de Moçambique até nem me ouçam até ao fim.
O Mais Novo sai em resposta à crônica do Mais Velho em um tom de discordância ao posicionamento deste último. Mas vou lendo o seu texto e chego a pensar que ele só estava a brincar nas suas primeiras linhas, pois me parece que ele vai solidificando e concordando com visão questionadora do Mais Velho em relação ao já badalado desenho das “3 Gerações”.
Só que também percebo que se o mais novo afirma que “A história de Moçambique não pode ser vista de forma desgarrada”, defende ainda assim o conceito das 3 gerações, o que fica um tanto contraditório pois acaba por dar especial luz a um período, e mesmo tentando disfarçar, colocando o foco apenas em uma certa parte dos responsáveis pela conquista da liberdade que os moçambicanos conquistaram.
O Mais Novo induz os seus leitores a acreditarem que o Mais Velho tenta desvincular de datas representivas os nomes de Cravirinha e Noêmia quando este fala de Craveirinhas e Noémias. Esquece, ou quer fazer os seus leitores esquecerem, que a colocação destes nomes no plural é exatamente uma forma figurativa de mostrar que houve mais do que um ou dois “Craveirinha”, que também houveram Pereiras, Rodrigues, Albinos, Rabecas, Silvas, e que alguns por falta de outra alternativa ou por convicção ficaram, e que outros mais por convicção do que falta de alternativa acabaram por deixar Moçambique antes ou depois do 25 de Junho. E não vou nem mesmo aqui detalhar os vários tipos de convicção que fizeram uns e outros abandonarem o sonho moçambicano, porque é sabido que o sonho de uns era de facto o pesadelo de outros, ainda que ambos tivessem convictos que deveriam abandonar o que eram os seus sonhos.
Não seria sério da minha parte desqualificar a luta armada na conquista da Independência de Moçambique. Mas é também desonesto não conhecer ou não querer conhecer a realidade de Moçambique nos tempos coloniais onde nem todos eram “colonialistas”.
É desonesto, por exemplo, não dar a devida importância a uma parcela importante do jornalismo moçambicano dos tempos coloniais na sua participação em procurar, dentro de todas as dificuldades de uma ditadura salazarista, transmitir a verdade sobre a dita sociedade “colonialista”, ajudando assim, em muito, que grande parte da população fosse mais receptiva aos movimentos em favor da liberdade de Moçambique. É desonesto também achar que além da Frelimo e do jornalismo de então não haviam outras estruturas da sociedade que abriam caminhos e clima para que a resistência à luta pela independência não fosse maior, fossem estas células da sociedade ligadas às artes ou não, como exemplificaram o Mais Novo no seu ponto de vista, e o Mais Velho no seu. Penso que era isto que também o Mais Velho buscou mostrar na sua crônica, além de outros recados que tentou passar.
No final da sua crônica o Mais Novo busca esclarecer o que seria a geração da viragem, mas esqueceu de nos tentar esclarecer de forma clara o que seriam as duas outras gerações anteriores. Como elas estariam correlacionadas com o não desmembramento da história e com a necessidade da virada.
E tenho, de novo, entrar em sintonia com o Mais Velho, até mesmo pela forma pouco clara e pouco coerente da explicação dada pelo Mais Novo em relação à terminologia “Geração da Viragem”.
Aqui por terras tupiniquins, em embates esportivos, usa-se o termo de se “virar o jogo” quando começamos perdendo. Penso que se temos uma evolução, ainda que gradativa, mais lenta do que gostaríamos, devemos ter é uma expectativa, se acreditamos de forma honesta do que foi feito até então, de que tenhamos uma geração mais focada e dando prioridade de fato para os menos favorecidos. Que devemos deixar de discursos aparentemente revolucionários mas envelhecidos e darmos passos mais largos, ainda que consistentes, aos reais valores da revolução.
Claro que sim, o mundo muda e nós devemos mudar com ele, mas temos que ser honestos conosco mesmo para avaliar o que não está correndo exatamente como se sonhou. E para isso os mais novos devem se preocupar em conhecer a história que os mais velhos têm a contar. Não se faz história sem se conhecer história.
Mas... que bom que todos nós parecemos concordar é que não devemos aceitar o tal “do vira o disco e toca o mesmo".

(Para os mais novos, disco era o famoso LP, que em tempos modernos é o CD - neste caso não dá nem para virar o disco! -, mas um como outro têm como objetivo mandar música aos nosso ouvidos)
        

sábado, 3 de abril de 2010

38 anos sem o Pai e jornalista Gouvêa Lemos

Convido os leitores da Lanterna a irem, por este link, ler sobre o dia que o Pai e Jornalista Gouvêa Lemos partiu.
Me sinto um felizardo por sentir saudades...

quinta-feira, 25 de março de 2010

Contaram-me que o "Brasil" está a brincar com os moçambicanos!!!

Há situações em que ficamos tristes, quase que com um sentimento de vergonha.
Por exemplo, aconteceu-me isso quando li hoje uma crônica, que com a devida vênia republicarei aqui na minha humilde Lanterna Acesa, do renomado jornalista Machado da Graça do jornal “Savana” de Maputo, Moçambique.
Como natural de Moçambique e tendo a minha família sido acolhida neste Brasil de todos, em um capítulo das nossas vidas que tanto precisamos dessa acolhida, a qual passei a amar como também meu sem nunca ter deixado de amar Moçambique. Este país que me fez seu cidadão. Este país que me fez conhecer um metalúrgico  que se fez Presidente da República onde na minha história brasileira não vi um melhor. Um país que me deu dois filhos, uma carioca e um curitibano. Um país que me deu orgulho ao noticiar que faria uma parceria com o meu também Moçambique na transferência de tecnologia com a produção de anti-rectrovirais para o combate do HIV (AIDS / SIDA)...
Mas acabo por ler a tal crônica de um renomado jornalista moçambicano dividindo com os seus leitores a decepção com o andar (!) do tal apoio noticiado pelo “meu” Lula quando de uma visita a Moçambique há uns anos atrás.
Leiam-na e entendam o meu sentimento de tristeza e vergonha!


A talhe de foice
Por Machado da Graça

A brincar com os moçambicanos

Aqui há uns anos, se bem me lembro no decurso de uma visita do Presidente Lula da Silva ao nosso país, o Brasil comprometeu-se a apoiar Moçambique na construção de uma fábrica de medicamentos anti-rectrovirais.
Na altura achei óptimo. Uma prova clara da verdade de uma cooperação sul-sul para a resolução dos gravíssimos problemas que enfrentamos.
Uma transferência da tecnologia, que o Brasil possui, e nós não a possuindo, tanto dela precisamos, dada a actuação da epidemia entre nós.
Mas, rapidamente, o entusiasmo foi esfriando. Os nossos amigos brasileiros foram começando a arrastar os pés, fazendo roçar a chinela na pedra da calçada, e as coisas não andaram.
Tempos depois, muito tempo depois, perante a nossa estranheza, começou a circular a ideia de que, numa primeira fase, nós só iriamos fabricar as caixinhas, e os comprimidos a colocar lá dentro, viriam já feitos do Brasil.
Era uma coisa totalmente diferente daquilo que estávamos à espera. Tecnologia para fazer caixinhas já nós temos há muito mais de 100 anos. Portanto, não iriamos aprender nada. Iriamos empacotar uma exportação de um produto brasileiro.
Mas, ao menos, isso seria rápido. Em 2010 a coisa estaria a funcionar.
Só que agora (Correio da Manhã 22/03/10) descubro que o Congresso Brasileiro aprovou, para começar em 2011, a fabricação das tais caixinhas.
E acho que aqui a brincadeira ultrapassou todos os limites.
Em primeiro lugar, a que propósito é que a fabricação de caixinhas de medicamentos em Moçambique tem que ser aprovada pelo Congresso Brasileiro? Não têm nada mais importante para tratar?
Depois, tenho que perguntar, porque é que só para o ano é que começa a fabricaçpão das caixinhas? Eu, se quiser fabricar caixinhas, vou a uma tipografia, das muitas que existem em Maputo, e, um mês depois, tenho as caixinhas no meu armazém.
E não gasto nada de parecido com os 7,4 milhões de dólares que o jornal diz que os brasileiros vão gastar.
Que raio de negociata está por trás de tudo isto? Quem é que está a ganhar a parte de leão deste bolo enorme?
Quem está a perder já todos sabemos. São os doentes do SIDA em todo o nosso país. Mas, com esses, quem é que se incomoda? Se não gerarem lucros para os poderosos, não existem. Podem morrer, que ninguém se vai preocupar com eles.
E o lúcro da negociata estará do lado de lá e do lado de cá. Não sei qual dos lados já “falou como homem” e qual já escutou.
Mas que as ma$$as devem estar a circular a alta velocidade, não tenho dúvidas.
O problema social e de saúde não existe nem para brasileiros nem para moçambicanos.
Para quem decide, a única preocupação é: Quanto vou eu ganhar com este negócio?
Alguém pode-me dizer que os tais decisores também podem ser vítimas de não haver anti-rectrovirais baratos no mercado.
Nada de mais falso.. À custa da corrupção e da roubalheira esses têm capacidade de comprar os antirectrovirais ao preço de mercado.
Por isso estão nas tintas...
A questão do SIDA é daquelas que não deixa ninguém indiferente. Perante ela toda esta questão dos custos e dos lucros assume aspectos muitíssimo mais pornográficos do que uma pornstar num filme XXX.
Será que o Presidente Lula da Silva sabe que isto está a acontecer?
Se não sabe, talvez seja altura de usarmos as novas tecnologias e para ele passar a saber.
No fundo, no fundo, é a palavra dele que está em causa.
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*Imagem do site Club of Moçambique

Em 01/04/2010, fico otimista que de fato o Presidente Lula, ainda que através dos seus auxiliares imediatos, venha  buscar entender o que se vem passando com a evolução do compromisso assumido com o povo moçambicano. Digo isto pois há uns minutos atrás recebi a mensagem abaixo:

infoap@planalto.gov.br para mim mostrar detalhes 16:58 (25 minutos atrás)

Prezado Senhor,

Em resposta a sua mensagem endereçada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, informamos que ela foi encaminhada à Assessoria Especial - Política Externa/PR para análise e eventuais providências.

Cordialmente,

Claudio Soares Rocha
Diretoria de Documentação Histórica
Gabinete Pessoal do Presidente da República

domingo, 21 de março de 2010

Orlando Zapata Tamayo - Uma vitima da luta pela Liberdade de expressão.

Por António Maria G. Lemos

Lula metalúrgico quando lutava pelo direito de falar.

Ao contrario da política interna do governo Lula, a externa segue o caminho fácil e de puro interesse político, de um lugar de destaque no pedestal internacional. Para alcançar tal objetivo, não lhe importa o nível das alianças. Se ditadores votarem por ele nos palcos internacionais, então passam também a ser seus “amigos”, independentemente dos valores antagônicos aos seus, que eles defendam.
Se as masmorras dos seus “aliados” estiverem cheias de pessoas que nunca mataram ninguém e tudo que fizeram foi lutar pela liberdade de expressão, por essa estar algemada em seus países por interesses religiosos ou políticos. Assim mesmo, a política internacional do governo Lula, baseada num pseudo pragmatismo, esquece o que milhares de pessoas sofreram no Brasil durante os anos de ditadura.
Cuba usou muitos anos o seu papel de vítima, isolada pelo boicote internacional imposto pelos falcões imperialistas americanos, para explicar ao seu povo, o porque de se ter que viver sob estado de segurança máxima, procurando em qualquer critica expressada de forma pacífica uma forma como taxar alguém como “aliado imperialista”. Mesmo depois dos seus aliados do passado terem reconhecido erros fatais políticos, como os verdadeiros culpados da miséria econômica do seu povo, terem mudado os seus cursos políticos. Hoje quando vemos os países do Leste, ditaduras passadas, renascerem das cinzas econômicas. Onde uma Polônia tem a chefia da Comunidade Européia, e outros países vizinhos do Leste, se integrarem num mundo global, com os seus cidadãos atravessando fronteiras culturais, econômicas e de ensino. Cuba bate o pé, feito menino pequenino, que quer ganhar a qualquer preço uma razão para poder continuar exercendo o seu direito da mais velha Ditadura da América Latina. Com o governo que teme a liberdade de expressão e a internet, mantendo uma comunicação sob o poder absoluto e irrefutável dos irmãos Castro. (Até mesmo uma das filhas que é opositora não só do seu pai, como de todo o esquema político que ele representa, não pode voltar a Cuba, sem correr o risco de ser presa).
No meio de todo esse absurdo, o nosso governo foi lá mostrar a sua solidariedade, que até é legítima quando se trata de defender o fim do boicote internacional, que na verdade cada vez mais existe no papel do que na pratica. (Veja-se as empresas que lá vendem os seus produtos, e sem falar nos investimentos internacionais na área do turismo, que lhes rende muitos dólares e uma sociedade paralela, com duas moedas oficiais circulando. O peso do povo, e o peso dos gringos). No entanto foi vergonhoso ver que o Lula não teve a coragem política para mencionar os valores democráticos que o Brasil defende, não só no país, como deverá desejar para todos os povos amigos. Enquanto a comitiva brasileira se regava em festejos de solidariedade entre povos latinos, bem ao estilo populista a serviço da máquina de informação dos donos da casa. um dos presos políticos de Cuba, o senhor Orlando Zapata Tamayo, que estava em greve de fome, falecia num dos cárceres de “Cuba Libre”.
Sem armas ou uso de violência, Zapata Tamayo, lutou pelos direitos primordiais humanos e democráticos que um dia o nosso presidente também lutou, mas que infelizmente hoje passaram a ser secundários, na sua luta de ser o novo Homem no pedestal internacional.
Senhor Presidente, o cidadão cubano Orlando Zapata Tamayo, seja em termos ideológicos ou de coragem civil, não tinha nada comparável com os nossos “gangsters” que dominam as nossas favelas, e que por falta de vontade política e recursos financeiros para as policias locais, continuam amedrontando e governando o dia-a-dia de grande parte das nossa população trabalhadora. Exilada nas grandes cidades do país.
Senhor Presidente, valerá mesmo pena se pagar qualquer preço, inclusive o de fechar os olhos a injustiças praticadas pelos nossos parceiros econômicos? Negando aos povos com quem nos relacionamos - seja por motivos políticos ou religiosos - que eles tenham também o direito de viver e exercer os princípios e Direitos Humanos mais elementares, que nós com muito suor e lágrimas conseguimos conquistar no Brasil?
Andamos sempre defendendo valores democráticos que na verdade, em termos ideológicos, vemos os partidos que acreditávamos também os defender, dando-lhes pontapés.
O cidadão cubano Zapata Tamayo e muitos outros que estão hoje presos ou exilados mundo a fora, são os Chicos Buarque, Carlos Prestes, etc, exilados e prisioneiros dos tempos obscuros do Brasil de ontem.
Homens e mulheres que lutam pelo direito de debater as diferenças de opinião, e lhes ser permitido redigir textos como este, sem que o preço a pagar seja o veredicto de um tribunal a serviço da ditadura, que os julga à masmorra e tortura do silêncio do pensamento.
Não se esqueça senhor Presidente. Nação sem memória ou valores, é nação vendida a futuro incerto. Por tanto, levando em conta o seu próprio passado e engajamento político, não coma no prato que já cuspiu. Trate os Zapata Tamayo do mundo afora, com o devido respeito que eles merecem. Se comporte à altura do solidário povo brasileiro que o elegeu, pela luta, coragem e verticalidade de princípios, que marcavam o seu caráter de então.
Povo que respeita e deseja para todos os povos do mundo; Liberdade de Expressão, para poder denunciar o abuso de poder impetrado em nosso nome, para um suposto bem da nossa Nação.

António Maria G. Lemos

quarta-feira, 17 de março de 2010

Irena Sendler

"Não se plantam sementes de comida. Plantam-se sementes de bondade e amor. Tratem de fazer um círculo de bondade e estas sementes crescerão mais e mais... muito mais".


(Irena Sendler)


Corre nestes dias um e.mail, retardatário, que nos relembra o falecimento de uma heroína que falaeceu a 12 de Maio de 2008. Algumas pessoas estão assimilando como se ela tivesse acabado de falecer. Não vejo este equivoco como importante. Importante de fato é, por qualquer meio lícito, lembrarmo-nos desta Mulher e dos ensinamentos que nos deixou.

Irena Sendler faleceu reconhecidamente como uma das grandes heroínas quando do Holocausto dos judeus na II Guerra Mundial.

A sua coragem fez com que mais de 2.500 crianças judias tenham sido salvas, quando como alemã tinha informações privilegiadas sobre os planos nazistas na invasão à Polônia.

Como sinal de solidariedade e também como forma de não chamar atenção sobre si, tinha a Estrela de David tatuada no braço e andava pelas ruas do Gueto de Varsóvia convencendo as famílias a deixarem-lhe levar os seus filhos daquele lugar para que os mesmos tivessem esperanças de sobrevivência. Quem acreditou nela salvou os seus filhos. Quem não conseguiu acreditar nela, o que é bastante compreensível, acabou por acompanharem a retirada dos seus filhos pelos nazistas quando estes foram encaminhados por trens a caminho dos “campos da morte”.

Usou de todos os artifícios possíveis para dali retirar estas crianças, desde informar aos nazistas que tirava crianças do bairro com tifo, até treinar o seu cachorro a ladrar quando avistava um nazista. Este cão andava sempre na caçamba da sua camionete, onde ali transportava crianças dentro de sacos e cestos como se fossem mercadorias (batatas e outros). Ao ladrar os nazistas acabavam por não se esforçarem a revistar o seu carro e por outro lado o barulho do latido abafava possíveis sons originados pelas crianças.

Esta Mulher não só salvava as crianças como olhava a possibilidade destas crianças virem a encontrar, tempos depois, algum familiar; anotava os nomes verdadeiros destas e as sua novas identidades e quando do fim da guerra entregou duas garrafas de vidro onde constavam estas listas de nomes, que haviam ficado enterradas no jardim de uma vizinha, ao Dr. Adolfo Berman que foi o primeiro presidente do Comitê de Salvamento dos Sobreviventes Judeus.

Chegou a se presa pela GESTAPO, cruelmente torturada e condenada à morte. Não foi executada porque um soldado alemão, quando a levava para a execução, desviou o caminho dizendo que a direcionava para um “interrogatório especial” e libertou-a. Passou a estar na relação dos poloneses executados e viveu até ao fim da guerra na clandestinidade mas sempre atuando a favor da proteçção dos judeus.

Se foi um dia reconhecida como uma heroína, mostra também que prêmios como o Nobel da Paz são extremamente injustos, fazendo com que ele(s) se tornem sem valor algum. Esta Mulher chegou a ser indicada para o Nobel da Paz em 2007, mas um tema na moda, que não deixa de ser importante se assim for tratado, direcionou o ex vice-preesidente americano Al Gore com a defesa do meio ambiente. Um premio para quem nem mesmo consegue convencer o seu país a ter uma posição mais responsável por algo que também aflige o mundo e que além de conceitos bem apresentados em um documentário, não fez absolutamente nada.

Melhor prémio será não esquecermos da Sra. Irena Sendler e dos conceitos de solidariedade e humanismo desta que deve ser referencia para todos nós.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tragédia no Haiti


Zilda Arns
Fonte:

Um terremoto preenche de forma trágica a já penalizada história do Haiti. E neste capítulo triste, entre os milhares de vitimas fatais, temos já a confirmação de 12 brasileiros mortos.
Se a morte de uma pessoa não tem mais valor ou menos valor como ser humano, entre estes 12 brasileiros está uma cidadã do Mundo que como tal está acima da média de um cidadão comum.
Zilda Arns é uma figura que transpirava as melhores energias nos ambientes que transitava, que trabalhava com todas as suas forças em trabalhos filantrópicos como na “sua” Pastoral da Criança onde era fundadora e coordenadora internacional que com ajuda de mais de 260 mil voluntários dá apoio a quase 2 milhões de gestantes e crianças menores de seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres, com um projeto que atende mais de 4.000 municípios brasileiros, e levava a sua mensagem e apoio a projetos similares pelo mundo. Uma personagem que vive em função da solidariedade, de ser solidária, e que ganhou tantas condecorações, como Heroína da Saúde Pública das Américas , que foi candidata ao Prêmio Nobel da Paz (2006), não é de fato uma pessoa comum. Como ser humano não era mais de que nenhuma das outras vitimas desta tragédia. Já como cidadã estava acima da grande maioria de nós, mortais.
Zilda Arns morreu fazendo o seu trabalho enquanto dava uma palestra em uma Igreja na capital do país mais pobre das Américas.
Sei que ela estará neste momento convocando todos a se levantarem para ajudar o povo do Haiti E como cidadãos não podemos fugir desta convocação fazendo o que pudermos ainda que dentro de limites individuais, que nunca serão pequenos quando estes esforços se conjugam.
Paz à Alma das vitimas fatais, esperança e conforto aos sobreviventes.